O ATO DE CONTEMPLAR

A exposição de escultura, “Do nada para parte alguma“, dos dois artistas plásticos Isabel Cabral e Rodrigo Cabral, inaugurou no dia 5 de dezembro de 2015, na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira. O catalogo da exposição engloba o texto da Prof.ª Doutora Leonor Soares,com o titulo:
O ato de contemplar.

Da representação da experiência percetiva e do seu enquadramento num todo consonante para a configuração-síntese dessa experiência – este é o espaço relacional em que compreendo as obras de Isabel e Rodrigo Cabral realizadas nos últimos 15 anos.

Acompanhando esta deslocação de sentido – que corresponde a uma deslocação da análise – permanece (em relação às obras das décadas de 1980 e 1990) a atitude valorizadora da experiência de ver e de contemplar, em tempos múltiplos.

Contudo, a observação encantada e encantatória da natureza, a consideração sobre a relação do ser humano com a natureza em registos de empatia e unidade, deram lugar a outras reflexões sobre a realidade em que o mundo exterior e o mundo interior são analisados sob novos pontos de vista.

Os motivos de inspiração orgânica presentes nos trabalhos anteriores são reescritos em composições de formas geométricas que se substanciam e revelam em contextos de analogias, cinetismos, equilíbrios, completudes. As evocações são conduzidas e/ou transformadas segundo uma organização que cita a forma como presença absoluta. Compreendo-as como configurações de qualidades da contemplação. As estruturas, antes representadas como parte de uma totalidade, são agora um meio de evidenciar relações de oposição, em desdobramentos sucessivos. Reencontramos feições e conceitos do construtivismo e do neoplasticismo atualizados como indicadores da experiência sensível e das contradições conciliadas – estão ao serviço do distanciamento analítico do ato de contemplar bem como do distanciamento crítico relativamente à sua dimensão não controlável racionalmente (da ordem do envolvimento sensível).

Como fio condutor, a depuração formal e a eleição da forma cónica. Sendo esta forma definida por uma superfície criada por uma reta que se desloca em torno de um eixo que ela própria intercepta num ponto, é uma forma que contém o movimento, na sua natureza, embora surja, visualmente, como estática. Mas, essa forma que habitualmente visualizamos e consideramos enquanto sólido geométrico, não existe isolada se entendida no espaço: é apenas uma das partes de uma figura que se compreende em relação a um ponto (o vértice) mas que continua para lá desse ponto, em simetria, e que será limitada por dois planos que intercetam o eixo e a reta em rotação. Na ausência da interceção desses planos, a superfície cónica partilharia do carácter infinito da linha reta que a origina. É, portanto, um só dos elementos que se opõem em relação ao ponto de interceção da reta, em movimento, com o eixo em relação ao qual ela se move. Ou seja, faz parte de si, uma outra forma, simétrica. E faz parte da sua condição plástica ser “capturada” e limitada. Esta dualidade (simetria e limite) está presente, direta e indiretamente, em várias obras. O cone transforma-se em paisagem, lugar de objetificação de relações de reciprocidade e de abertura de possibilidades. É um elemento que liga as várias obras e evidencia a construção poética do conjunto.

Considerado como sólido geométrico e figura no espaço, o cone é tratado, nas várias composições, em contextos de referência às qualidades de caráter dual que incorpora: movimento/estatismo; parte/todo; finito/infinito; forma única/ forma simétrica. O conceito de simetria é desenvolvido em várias abordagens: a simetria implícita no sólido de revolução (simetria em relação ao plano que passa pelo eixo); a simetria evocada na composição e a simetria das formas refletidas no espelho. Estas diversas perspetivas, na sua articulação, multiplicam as funções de cada elemento na composição de cada obra. A paleta reduzida às cores primárias pigmento (que em conjunto contêm as possibilidades de todas as cores), corresponde à mesma lógica de seleção de atributos, sublinhando a oposição parte-todo. Quando associadas a superfícies refletoras de aço polido indicam também a sua condição material específica, convocando as cores primárias luz mas afirmando a diferença da sua condição e comportamento oposto: síntese subtrativa versus síntese aditiva. As circunstâncias em que os significados são ativados tornam-se tema.

A memória dos elementos naturais não é excluída – permanece nas origens das formas geométricas e anuncia o seu carácter de síntese. Do transitório original para a ideia de transitório. O processo de transformação progressivo permite compreender a genealogia dos trabalhos. A sua inscrição manifesta-se no desenvolvimento de cada elemento no espaço, na modalidade escolhida de união, nos pontos de encontro de planos e linhas, de polimentos e opacidades – aspetos da mesma malha conceptual.

A presença do cone e das suas variações na quase totalidade das obras facilita a compreensão dos objetos escultóricos como uma realidade acessível e familiar, um equivalente plástico do entendimento das coisas e do mundo: surgem em desenhos que acompanham conversas, concretizando no papel relações visuais correspondentes à cadência e ao sentido dos diálogos. São parte das vivências quotidianas, estão vinculadas às ondulações de emoções, ao fluir das ideias e desejos. Num texto datado de 2007, Isabel e Rodrigo Cabral identificavam o carácter deste vínculo: “ (…) Estas esculturas são instrumentos que registam cada momento interior, quantificadoras do espaço ao qual dão nome, constituem-se como marcas precárias da nossa caminhada, memórias efémeras. A matéria que na atualidade as constitui simula a perenidade a que não se destinam, elas são objetos fugazes que nos relacionam com a realidade que nos cerca e que a interrogam, cadernos de apontamentos onde se encadeia o pensamento, notas soltas que organizamos em direção a algures… monumentos ao devir, relógios do tempo”.

Sendo uma das vias de expressão de Isabel e Rodrigo Cabral, as esculturas são interlocutoras do desenho, da pintura e da escrita e devem ser entendidas nessa condição. Fixam pensamentos, esclarecem conceitos, criam atmosferas, sugerem possibilidades diversas de ver. A sua particular natureza física, definidora de espacialidades e reveladora da plasticidade do que a envolve, convoca-nos para encontros em tempos lentos, o olhar repousado em si mesmo.

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